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CA 1600/001/2014

2017 Cecilia Schiavo

Publicado em 2014 pelas editoras Letramento/Quixote, Poesia Colírica reúne 50 poemas de Enzo Banzo, divididos em três capítulos:

Poesia Calada

            Poesia Colírica

                         Poética do Fim

 

É de Marcelino Freire o texto de orelha que apresenta o livro:     

"Gosto da poesia que dá um passo. Depois o outro. Tem seu tempo. Certeiro. Não se mete à besta. Nem a devaneios. A poesia coloquial. Banal. Ao natural. A poesia que não se atropela. Não apela. Não veste gravata. Mora na gente. Feito uma casa. Emprestada. Para passar uns dias. Fugir da chuva. Dormir na boa. Poesia que olha na cara da pessoa. Vai além sem ser chata. Melancólica sem ser melosa. Uma lírica simples. Feito esta Poesia Colírica. A gente pinga os versos na retina. E os versos ajudam a gente a ver. Rever. Relembrar. Passar os amores a limpo. Na memória. O que dói é para doer a dois. Ninguém está no alto. Nem abaixo. Não se é o dono da verdade quando se escreve. Não se aponta o dedo. Enzo Banzo tem esse jeito. De ir fundo. Sem querer ser o descobridor do mundo. O senhor da razão. É poesia pisando o mesmo chão do outro. Caminhando e cantando. Deitando e dormindo. Juntos. Movidos pelo mesmo sonho. Destino. E desejo. Sim. Uma poesia onde o que importa é o que se deseja. Não o que se tem. Música e letra. Corpo e alma. Emparelhados. A toda hora. Sinto. A dor dividida ao meio. Uma mesma canção de que somos feitos. Mergulhados no mesmo silêncio. Manso. Ele nos diz em um dos poemas. “A dor / não volta / a dor / se torna / outra”. É este o movimento. Feito aos poucos. Sem culpa. Não há culpados. Nem vitoriosos. Diante da vida. Para cada espera uma esperança. E vice-versa. Enzo Banzo é este bem-aventurado poeta. Que diz o que tem de ser dito. Atrás de nosso ouvido. Baixinho e contundente. Uma poesia de mãos dadas. Menos romântica e mais fraterna. Correndo ao nosso lado. Mas distante de nossa pressa".

Poesia Colírica

como é gostoso um corpo

quando as almas se encontram

um corpo quer outro corpo

em busca de mais que um corpo

 

à procura do intangível

pelo toque no palpável

no mergulho entre os profundos

percursos intermináveis

 

do olho, do peito e da carne

 

e se as almas se encontraram

foi por se juntarem os corpos

que são, afinal, as almas

que são, afinal, os corpos

quando eu nasci o sonho já tinha acabado

fazia tempo

quando eu nasci garrincha já tinha parado

já era o fim do segundo tempo

quando saquei o sonho o sonho era retrô

quando era novo eu só ouvia disco velho

não entendia o que era estranho em joão gilberto

nem no velô

agora

é o tempo

do depois

depois

vai ser mais

depois ainda

quando eu morrer não importa o que eu tenha sonhado

quando eu nasci o sonho já tava enterrado

a gente sente

e tudo que a gente sente

a gente é

 

a gente diz

e tudo que a gente diz

a gente mente

o amor

é o maior

chicle

nó no pescoço

não desce a dor

nem o almoço

você distante

me sinto longe

de mim

um

 

+

 

 um

 

 =

 

dói

ontem

- nós - 

era bonito

 

hoje

ontem

dói

tem coisas que guardo

e não faz sentido

pois sei que não guardam

o tempo partido

tem coisas que aguardo

e não tem por que

se um dia chegarem

nem vou perceber

 

caminhando e cantando e

caminhando e cantando e

caminhando e cantando e

caminhando e cansando e

caminhando e sentando e

deitando e dormindo

 

 

 

 

 

 

e deus-se

o Desejo

Alguns

Poemas